Normativo

CPC 28 (Propriedade para Investimento): Guia Prático de Aplicação

O CPC 28 regula o tratamento contábil das propriedades para investimento no Brasil, alinhado à IAS 40. Conheça os critérios de classificação, os modelos de mensuração e as exigências de divulgação que impactam diretamente o balanço patrimonial.

WJ
Andre Gonçalves, Sócio, VP Operações Brasil, Diretor Técnico e CFO
3 de Abril, 202614 min de leitura
CPC 28 (Propriedade para Investimento): Guia Prático 2026

O CPC 28, Propriedade para Investimento, é o pronunciamento do Comitê de Pronunciamentos Contábeis que disciplina o reconhecimento, a mensuração e a divulgação de imóveis mantidos para obtenção de renda ou valorização de capital — e não para uso na produção, fornecimento de bens e serviços ou para fins administrativos. Convergente com a IAS 40 do IASB, o CPC 28 exige que as entidades classifiquem corretamente seus imóveis e escolham um modelo de mensuração subsequente — valor justo ou custo — aplicando-o de forma consistente a todo o portfólio de propriedades para investimento. A classificação incorreta é uma das principais fontes de distorção nas demonstrações financeiras de empresas com carteiras imobiliárias significativas, especialmente holdings patrimoniais, fundos imobiliários e incorporadoras com unidades destinadas à locação.

O que é propriedade para investimento segundo o CPC 28

Propriedade para investimento é o imóvel — terreno ou edifício, ou parte de edifício, ou ambos — mantido pelo proprietário ou pelo arrendatário como ativo de direito de uso para auferir aluguel ou para valorização de capital, ou ambos. O ponto central da definição é a finalidade: o imóvel não pode estar sendo usado na produção ou no fornecimento de bens e serviços, nem pode estar destinado à venda no curso normal das operações (caso em que se classifica como estoque, conforme CPC 16). A distinção entre propriedade para investimento e imobilizado de uso (CPC 27) nem sempre é trivial, especialmente em empresas que possuem imóveis com uso misto — parte locada a terceiros, parte utilizada pela própria entidade.

  • Terrenos mantidos para valorização de capital a longo prazo — e não para venda a curto prazo no curso normal das atividades.
  • Terrenos mantidos para uso futuro ainda não determinado — presume-se que estão sendo mantidos para valorização de capital.
  • Edifício de propriedade da entidade (ou direito de uso) arrendado por meio de arrendamento operacional a terceiros.
  • Edifício desocupado, mas mantido para ser arrendado a terceiros por meio de arrendamento operacional.
  • Imóvel em construção ou desenvolvimento para uso futuro como propriedade para investimento.

Não se classificam como propriedade para investimento: imóveis destinados à venda no curso normal das operações (estoque — CPC 16), imóveis ocupados pelo proprietário para uso próprio (imobilizado — CPC 27), imóveis em construção ou desenvolvimento por conta de terceiros (contrato de construção — CPC 17) e imóveis arrendados a outra entidade sob arrendamento financeiro.

Reconhecimento inicial e composição do custo

O reconhecimento inicial de uma propriedade para investimento segue os mesmos critérios gerais do CPC 27: o ativo é reconhecido quando for provável que os benefícios econômicos futuros associados ao item fluirão para a entidade e o custo puder ser mensurado confiavelmente. O custo inicial compreende o preço de compra e quaisquer dispêndios diretamente atribuíveis — como honorários profissionais de serviços legais, impostos de transmissão e outros custos de transação. Custos de início de operação (start-up costs), perdas operacionais iniciais antes de atingir o nível planejado de ocupação e quantidades anormais de desperdício de material, mão de obra ou outros recursos consumidos na construção não integram o custo.

ComponenteCapitalizar?Fundamento
Preço de aquisição do imóvelSimCPC 28.20 — custo de compra
ITBI e custos cartoráriosSimCustos diretamente atribuíveis à transação
Honorários de corretagem na compraSimCusto de transação diretamente atribuível
Reformas para adequar à locaçãoSimCusto para colocar o ativo em condição de uso pretendido
Custos de manutenção rotineiraNãoDespesa do período — CPC 28.18
Perdas operacionais antes da locação plenaNãoCPC 28.23 — resultado do período
Custos de relocação de inquilinosNãoDespesa do período — não são custo do ativo

Mensuração subsequente: modelo de valor justo vs. modelo de custo

Após o reconhecimento inicial, a entidade deve escolher como política contábil o modelo de valor justo ou o modelo de custo — e aplicar essa política a todas as suas propriedades para investimento. A escolha é irrevogável no sentido prático: embora o CPC 28 permita mudança para o modelo de valor justo (por ser considerada mais informativa), a mudança inversa — do valor justo para o custo — é altamente improvável de resultar em apresentação mais relevante. Na prática brasileira, a maioria das empresas listadas na B3 com portfólios imobiliários relevantes adota o modelo de valor justo, enquanto empresas de menor porte tendem ao modelo de custo por simplicidade.

AspectoModelo de Valor Justo (CPC 28.33-55)Modelo de Custo (CPC 28.56)
Base de mensuraçãoValor justo na data do balançoCusto menos depreciação acumulada e impairment
DepreciaçãoNão aplicável — o valor justo já reflete a deterioraçãoObrigatória — conforme CPC 27
ImpairmentNão aplicável separadamente — incorporado ao valor justoObrigatório — conforme CPC 01
Ganho ou perda de mensuraçãoResultado do período (DRE)Não há — exceto impairment
Laudo de avaliaçãoObrigatório a cada período de reporteNecessário apenas para impairment ou divulgação
Complexidade operacionalAlta — requer avaliações periódicasBaixa — mesma mecânica do imobilizado
Volatilidade no resultadoAlta — variações de mercado impactam a DREBaixa — resultado impactado apenas por depreciação e impairment

Quando a entidade adota o modelo de valor justo, deve divulgar o valor justo de todas as propriedades para investimento — mesmo que utilize avaliadores internos. A IAS 40 e o CPC 28 encorajam (mas não exigem) que a avaliação seja feita por avaliador independente com qualificação profissional reconhecida e experiência recente na localização e categoria do imóvel.

Determinação do valor justo: métodos e desafios

O valor justo de uma propriedade para investimento deve refletir as condições de mercado na data do balanço — e não em data passada ou futura. O CPC 46 (Mensuração do Valor Justo) complementa o CPC 28 ao definir a hierarquia de inputs e as técnicas de avaliação aplicáveis. Na prática, o método mais utilizado para imóveis de renda é o da capitalização de renda (income approach), que desconta os fluxos de caixa futuros esperados (aluguéis líquidos) a uma taxa que reflita o risco do ativo. Para terrenos sem renda, o método comparativo de dados de mercado é o mais adequado.

  • Abordagem de mercado (market approach): utiliza preços de transações recentes de imóveis comparáveis, ajustados por diferenças de localização, estado de conservação, área e padrão construtivo. Mais confiável para imóveis residenciais e terrenos urbanos com mercado ativo.
  • Abordagem de renda (income approach): desconta os fluxos de caixa futuros esperados — aluguéis líquidos menos vacância, inadimplência e despesas operacionais — a uma taxa de desconto que reflita o risco do investimento. Utilizado para edifícios comerciais, galpões logísticos e shopping centers.
  • Abordagem de custo (cost approach): estima o custo de reposição do imóvel ajustado pela depreciação física e funcional. Utilizado como método complementar quando não há transações comparáveis nem renda associada.
  • Hierarquia de valor justo (CPC 46): Nível 1 — preços cotados em mercado ativo (raro para imóveis); Nível 2 — inputs observáveis ajustados (transações comparáveis); Nível 3 — inputs não observáveis (fluxo de caixa descontado com premissas internas). A maioria das propriedades para investimento é classificada no Nível 3.

Um dos maiores desafios práticos é a consistência das premissas utilizadas entre períodos e entre diferentes avaliadores. Empresas com carteiras grandes frequentemente contratam mais de um avaliador, o que pode gerar inconsistências nas taxas de desconto, taxas de vacância projetadas e horizontes de projeção. A CPCON recomenda a definição de premissas-base padronizadas, revisadas anualmente pelo comitê de avaliação ou pela administração, para garantir comparabilidade e auditabilidade.

Transferências e reclassificações

O CPC 28 prevê situações em que um imóvel deve ser transferido de ou para a categoria de propriedade para investimento. A transferência só ocorre quando há mudança de uso evidenciada por fato objetivo — não por mera decisão gerencial sem efeito prático. Os exemplos incluem: início de ocupação pelo proprietário (transferência para imobilizado — CPC 27), início de desenvolvimento com objetivo de venda (transferência para estoque — CPC 16), fim da ocupação pelo proprietário e início de arrendamento operacional a terceiros (transferência para propriedade para investimento), e fim do desenvolvimento com início de arrendamento operacional.

EventoDeParaTratamento contábil
Início de ocupação pelo proprietárioPropriedade para investimentoImobilizado (CPC 27)Custo presumido = valor justo na data da transferência
Início de arrendamento a terceirosImobilizado (CPC 27)Propriedade para investimentoDiferença entre valor contábil e valor justo: reserva de reavaliação (PL) se ganho; resultado se perda
Início de desenvolvimento para vendaPropriedade para investimentoEstoque (CPC 16)Custo presumido = valor justo na data da transferência
Fim de construção para locaçãoImóvel em construçãoPropriedade para investimentoDiferença entre custo e valor justo: resultado do período

O tratamento contábil da transferência depende da direção e do modelo de mensuração adotado. Quando a entidade usa o modelo de valor justo e transfere o imóvel para imobilizado, o valor justo na data da transferência torna-se o custo presumido do ativo sob o CPC 27. Quando a transferência é do imobilizado para propriedade para investimento mensurada a valor justo, qualquer diferença positiva entre o valor contábil e o valor justo é reconhecida em outros resultados abrangentes (reserva de reavaliação no PL), enquanto diferenças negativas vão ao resultado.

Divulgações obrigatórias e exigências de auditoria

O CPC 28 exige um conjunto extenso de divulgações que visa dar transparência ao investidor sobre a natureza, os valores e os riscos das propriedades para investimento. A insuficiência dessas divulgações é frequentemente apontada em relatórios de revisão da CVM e em pareceres de auditoria com ênfase.

  • Modelo de mensuração adotado (valor justo ou custo) e, se valor justo, se a avaliação foi feita por avaliador independente qualificado.
  • Critérios utilizados para distinguir propriedade para investimento de imóvel de uso próprio e de estoque.
  • Métodos e premissas significativas aplicados na determinação do valor justo — incluindo declaração sobre a extensão em que o valor justo se baseia em evidências de mercado ou em outros fatores.
  • Valores reconhecidos no resultado: receita de aluguel, despesas operacionais diretas (com e sem receita de aluguel), ganhos ou perdas líquidos de ajustes de valor justo.
  • Restrições sobre a realização de propriedades para investimento e sobre a remessa de receitas e recebimentos de alienação.
  • Obrigações contratuais de compra, construção, desenvolvimento, reparos, manutenção ou melhorias.
  • Conciliação do valor contábil no início e no final do período, mostrando adições, alienações, transferências, ganhos/perdas de valor justo, variação cambial e outros movimentos.

Mesmo quando adota o modelo de custo, a entidade deve divulgar o valor justo da propriedade para investimento nas notas explicativas — a menos que o valor justo não possa ser determinado confiavelmente em base contínua, situação que deve ser justificada e é rara na prática.

Impacto prático e como a CPCON apoia a conformidade

A aplicação correta do CPC 28 tem impacto direto no balanço patrimonial, no resultado e nos indicadores financeiros das empresas. A escolha do modelo de valor justo tende a aumentar o ativo total e o patrimônio líquido (quando há valorização), mas também introduz volatilidade no resultado. Para empresas listadas, essa volatilidade pode afetar a percepção de investidores e analistas, especialmente em períodos de retração do mercado imobiliário. Já o modelo de custo oferece estabilidade, mas pode subrepresentar significativamente o valor dos ativos — o que prejudica indicadores como o loan-to-value e pode limitar o acesso a crédito garantido por imóveis.

A CPCON atua como parceira estratégica das empresas na gestão de propriedades para investimento, oferecendo laudos de avaliação aderentes à NBR 14653 e ao CPC 46, revisão de políticas contábeis de classificação (CPC 27 vs. CPC 28 vs. CPC 16), suporte na implementação do modelo de valor justo com premissas consistentes e auditáveis, e acompanhamento periódico das reavaliações para cumprimento dos prazos de reporte. Com mais de 25 anos de experiência em avaliação patrimonial, a CPCON garante que as premissas utilizadas nas avaliações sejam defensáveis perante auditores independentes, reguladores (CVM, Bacen) e órgãos fiscalizadores.

Se a sua empresa possui imóveis mantidos para renda ou valorização e precisa de suporte para classificação, mensuração e divulgação conforme o CPC 28, entre em contato com a equipe de consultoria patrimonial da CPCON pelo site grupocpcon.com e solicite um diagnóstico sem compromisso.

Perguntas Frequentes

O que é o CPC 28 e o que define como propriedade para investimento?
O CPC 28 é o pronunciamento contábil que disciplina o tratamento de propriedades para investimento — imóveis (terrenos, edifícios ou partes deles) mantidos pelo proprietário ou arrendatário para auferir aluguel ou para valorização de capital, e não para uso operacional da entidade nem para venda no curso normal das operações. O critério decisivo é a finalidade: o imóvel não pode estar sendo usado pela própria empresa em produção, fornecimento de bens/serviços ou administração (essas situações são reguladas pelo CPC 27). É convergente com a IAS 40 do IASB.
Qual a diferença entre CPC 28 e CPC 27?
A diferença é o uso pretendido do bem. CPC 27 (Ativo Imobilizado / IAS 16) regula bens tangíveis mantidos para uso na produção, fornecimento de bens/serviços ou administração da própria empresa — exigindo depreciação sistemática. CPC 28 (Propriedade para Investimento / IAS 40) regula imóveis mantidos para auferir aluguel ou para valorização de capital — permitindo escolher entre modelo de custo (com depreciação, igual ao CPC 27) ou modelo de valor justo (sem depreciação, com variações reconhecidas no resultado). Exemplo: galpão usado como fábrica = CPC 27; edifício comercial alugado a terceiros = CPC 28.
Como funciona a mensuração a valor justo no CPC 28?
No modelo de valor justo, a propriedade para investimento é mensurada na data do balanço pelo seu valor justo — definido pelo CPC 46 como o preço que seria recebido pela venda do ativo em transação não forçada entre participantes do mercado. Não há depreciação. As variações de valor justo entre períodos são reconhecidas integralmente no resultado do exercício (DRE). Os métodos mais comuns são: abordagem de renda (income approach — desconto de fluxos de caixa de aluguéis líquidos) para edifícios comerciais; abordagem de mercado (comparativo de transações recentes) para residenciais e terrenos urbanos; abordagem de custo como complemento quando não há outras referências. A maioria dos imóveis brasileiros é classificada no Nível 3 da hierarquia de valor justo (inputs não observáveis).
Modelo de valor justo ou modelo de custo: qual escolher?
A escolha depende do perfil da empresa e do impacto no resultado. Modelo de valor justo (CPC 28.33-55): vantagens — informação mais relevante para investidores, captura ganho de valorização imediato no PL/resultado, indicadores como loan-to-value ficam mais precisos. Desvantagens — alta volatilidade no resultado (variações de mercado impactam DRE), custo operacional elevado (avaliações periódicas), exposição em períodos de retração imobiliária. Modelo de custo (CPC 28.56): vantagens — estabilidade no resultado, baixa complexidade operacional, igual à mecânica do imobilizado já conhecida. Desvantagens — subrepresenta o valor real dos ativos em períodos de valorização, pode prejudicar acesso a crédito. Empresas listadas com portfólio relevante tendem ao modelo de valor justo; PMEs tendem ao modelo de custo. A escolha é por POLÍTICA CONTÁBIL e aplica-se a TODAS as propriedades para investimento da entidade.
Quais são as divulgações obrigatórias do CPC 28?
O CPC 28 exige conjunto extenso de divulgações: (1) modelo de mensuração adotado (valor justo ou custo) e, se valor justo, se a avaliação foi feita por avaliador independente qualificado; (2) critérios usados para distinguir propriedade para investimento de imóvel de uso próprio e de estoque; (3) métodos e premissas significativas aplicados na determinação do valor justo; (4) valores reconhecidos no resultado — receita de aluguel, despesas operacionais diretas, ganhos/perdas líquidos de ajustes de valor justo; (5) restrições sobre a realização das propriedades e sobre remessa de receitas; (6) obrigações contratuais de compra, construção ou melhorias; (7) conciliação do valor contábil no início e no final do período mostrando adições, alienações, transferências e ganhos/perdas. Mesmo no modelo de custo, é obrigatório divulgar o valor justo em notas explicativas.
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Andre Gonçalves

Andre Gonçalves

Sócio, VP Operações Brasil, Diretor Técnico e CFO | Grupo CPCON

Contador Registrado CRC-SP

Sócio do Grupo CPCON, Vice-Presidente de Operações CPCON Brasil, Diretor Técnico e CFO. Contador registrado CRC-SP, responsável tecnicamente pelos serviços de gestão patrimonial, avaliação de ativos, depreciação e conformidade contábil da CPCON em projetos no Brasil e exterior.

Nota de transparência: Este artigo reflete a experiência prática da equipe CPCON. Recomendamos validar decisões contábeis e fiscais com seu auditor ou contador responsável.

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